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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
a preguiça da metáfora
Hoje eu tinha uma metáfora muito boa para a literatura. A literatura era como um carro, tinha várias marcas.
Não, não era isso. Deixa eu tentar lembrar... O que eu fiz hoje que poderia ter me inspirado? Comprei um fatiador de queijo. A literatura é como trabalho doméstico, nunca acaba e nunca é o suficiente.
Não, não era isso. O que mais eu fiz hoje? Descobri uma praga de ácaros no armário da cozinha. A literatura é como um pesticida, nunca funciona como você espera e deixa o ambiente fedendo. Não. A literatura é como telemarketing, incomoda e nunca diz o que você queria ouvir. Não, podre. Que tal: a literatura é como rinite alérgica, você nunca vai convencer o médico a te dar um remédio que efetivamente funcione.
Não, não era nada disso.
Literatura é como amnésia.
domingo, 5 de agosto de 2012
algumas reflexões impertinentes sobre literatura
Dizem que a literatura é a mais simples das artes. Basta ser alfabetizado e ter caneta e papel que você pode ser um escritor. (a Jane Austen, por exemplo, escreveu seus romances em uma mesinha pequenininha, que só tinha espaço para o tinteiro). Mas um pintor, um artista digital, um músico têm como aliados diversos instrumentos, atrás dos quais eles podem se esconder (ou talvez atrás de outras pessoas). A literatura, ao contrário, é condenada à mais completa solidão, abandono e deriva. O escritor deve se deparar com o pior horror de todos, a aberração da natureza, a intimidação mais agressiva do pedaço de papel em branco. É como se fizesse o artista construir uma coisa usando nada mais do que ar. Não. Do que areia do mar, sujeita às intempéries -- o vento, a chuva, o mar, etc.
(Um dia, meu pai me ligou com uma pergunta simples: qual é o primeiro elemento que se coloca na betoneira para fazer concreto?
A- cimento
B- água
C- areia
D- brita
Desde então estou convencida de que na resposta desta pergunta reside toda a literatura.)
domingo, 13 de novembro de 2011
telefone sem fio
e resolvi me castigar na última viagem. Minhas coisas sempre
têm a ver com recompensa ou castigo, ainda me trato como uma menina de 5 anos.
Nem tanto para me punir, na maioria das vezes para me ajudar a reconhecer
quando faço alguma coisa boa, ou extraordinária. Me puni: sem caneta nem papel.
Nunca tinha percebido assim, na pele, a compulsão que tenho por escrever.
Escrever QUALQUER coisa.
Ultimamente, comecei a fazer listas. Onze coisas que eu
detesto. Cinco pratos que aprendi a fazer e gosto muito. Três piores anos da
minha vida. Sete piores foras que uma pessoa pode levar. Cinco melhores filmes
do Brad Pitt.
De repente, isso chegue um dia a um conhecimento singular de
mundo, não sei. Não me importo, na verdade. Nem tudo o que a gente faz tem que
ter um objetivo. Viver mesmo, como atividade humana, não tem um objetivo, nem,
sei lá, ser feliz. Dançar. Bater bola. As pessoas continuam fazendo isso
indiscriminadamente, mas escrever, por algum motivo obscuro tem que ser sofrido, tem que fazer as pessoas sentirem.
Escrever não precisa ter um objetivo específico, uma
obrigação no universo. Pode simplesmente ter uma função desopilante, por
exemplo. Não digo de uma forma freudiana, mas como uma maneira muito simples de
organizar ideias, comunicar, passar o tempo. Como fazer crochê. Como passar
horas no facebook curtindo foto de gatinho.
Ler é bom. É uma das poucas atividades que pode vir a fazer
o seu cérebro desligar e estar à deriva. Uma deriva totalmente indiscriminada,
aliás, você pode ler horóscopo, Thomas Mann, Sabrina (com cenas picantes),
relatório de remessa de pinos de joelho, Turma da Mônica Jovem. Você pode inclusive
ler tudo isso junto, num dia só,
entre pausas no trabalho e idas ao banheiro. Conheci um cara que leu O Discurso sobre o Método no banheiro,
não entendi o apelo, mas aí vai da pessoa…
Gosto de escrever umas frases
soltas que as pessoas falam por aí. Comecei a fazer isso depois que troquei uma
ideia, que chique, com o Chico Alvim, na casa dele, em Brasília. Ele me disse
pra ler a poesia dele como se fosse uma pessoa falando no telefone, sem ouvir a
resposta da outra.
Comecei um caderno com uma frase de uma palestra (ou de um
livro) do Sergio Ciancaglini, um jornalista argentino. Ele falava de
experiências portadoras de futuro (está escrito com uma caneta cinza, bem no
topo da primeira página da minha caderneta, entre aspas). Agora que eu escrevi
essa frase neste texto, fico pensando que todos os textos são experiências
portadoras de futuro.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
além de amar
eu sei que é clichê. muitos dos leitores deste blogue vão imediatamente desfavoritá-lo depois que souber que vou publicar uma entrevista da revista da Oprah com a Elizabeth Gilbert (autora de Comer, Rezar, Amar). Mas a verdade é que a mulher é uma heroina. Se você está pensando com nojo do best seller dela, basta dizer que num mar de moiçolas casamenteiras, ela é uma pessoa madura que problematiza a razão de ser da mulher nesse mundo. e vende milhões de cópias. palmas pra ela! (é muito bom chegar no final da comédia romântica e, pra variar, não pensar que a solução pra todos os meus problemas é casar com um cara perfeito e ficar grávida).
LK: While the book Commited is fundamentally about marriage, you are also quite frank about not wanting children, which had been a big problem in your first marriage. How did you reach that decision?
LG: Where other women hear that tick, tick, tick and they're like, Must have baby, for me, it was like, tick, tick, tick, boom. [Laughs] It was a biological clock, but it was attached to a bunch of C-4 explosives. I've often thought that if I had been married to somebody who wanted to be a mom, I could have done it. I used to say, "Man, I think I'd be a really good dad. I'll be a great provider. I'm funny; I'll go on trips with them—I'll do all sorts of stuff." But the momming? I'm not made for that. I have a really good mom; I know what she put into it. I didn't think I had the support to both have that and continue on this path that was really important to me. I wasn't married to a man who wanted to stay home and raise kids. So.
LK: You tell a story in the book that is pivotal for you, about your grandmother. She was born with a cleft palate and thought to be unmarriageable, so she got an education and took care of herself, one day rewarding herself with a $20 fur-trimmed, wine-colored coat, which she adored. Eventually she does marry. And when she gives birth to her first daughter, she cuts up the coat to make something for the child.
LG: That's the story of motherhood, in a large way. You take the thing that is most precious to you, and you cut it up and give it to somebody else who you love more than you love the thing. And we tend to idealize that, and I'm not sure we should. Because the sacrifice that it symbolizes is also huge. Her marriage and her seven children, in a life of constant struggle and deprivation—it was heavy. And that beautiful mind, that beautiful intellect, that exquisite sense of curiosity and exploration, was gone. I went to Africa when I was 19, and when I came back, I was showing her pictures. And I remember her stopping me and just—she had to collect herself. And she said, "I cannot believe that a granddaughter of mine has been to Africa. I just can't imagine how you got there." I think that her story is so central to my story. To be able to choose the shape of your own life—you sort of must do that, as an act of honor to those who couldn't. There were times, especially when I was traveling for Eat, Pray, Love, when, I swear to God, I would feel this weight of my female ancestors, all those Swedish farmwives from beyond the grave who were like, "Go! Go to Naples! Eat more pizza! Go to India, ride an elephant! Do it! Swim in the Indian Ocean. Read those books. Learn a language. Do it!" I could just feel them. They were just like, "Go beat the drum."
Leia mais aqui.
terça-feira, 19 de julho de 2011
um post por dia
ÃS VEZES eu fico pensando que o nonsense não é uma coisa bem apreciada. se tivéssemos agora um concurso de poesia, duvido que aquela que não tivesse um propósito específico, uma agenda, uma força organizadora e explicativa poderia ganhar o prêmio.
e também porque o nonsense envolve algum humor. e tem que ser sempre despretencioso e escritor despretencioso é uma safra que não nos dá o ar da graça há bastante tempo. no fundo, como diria leyla perrone-moisés: "Foi somente a partir do romantismo que ela [a literatura] passou a ter o sentido que, em parte, tem ainda hoje: textos escritos numa linguagem particular, que interrogam e desvendam o homem e o mundo de maneira aprofundada, complexa, surpreendente.".
eu tenho medo de uma literatura que desvende o homem /reginaduarte. Que desvende o mundo. é como se a literatura fosse o manual didático da existência na terra, quando, na maior parte das vezes ela é complicada, ambígua, moralmente estranha.
e viva a estranheza, viva as coisas que a gente não entende, mas que de alguma maneira mágica conseguimos dialogar, manipular, confeccionar. viva o nonsense.
e também porque o nonsense envolve algum humor. e tem que ser sempre despretencioso e escritor despretencioso é uma safra que não nos dá o ar da graça há bastante tempo. no fundo, como diria leyla perrone-moisés: "Foi somente a partir do romantismo que ela [a literatura] passou a ter o sentido que, em parte, tem ainda hoje: textos escritos numa linguagem particular, que interrogam e desvendam o homem e o mundo de maneira aprofundada, complexa, surpreendente.".
eu tenho medo de uma literatura que desvende o homem /reginaduarte. Que desvende o mundo. é como se a literatura fosse o manual didático da existência na terra, quando, na maior parte das vezes ela é complicada, ambígua, moralmente estranha.
e viva a estranheza, viva as coisas que a gente não entende, mas que de alguma maneira mágica conseguimos dialogar, manipular, confeccionar. viva o nonsense.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
titanic
HÁ ALGUNS dias, assisti novamente o clássico de James Cameron. (veja o desdém com que o reassisti da última vez aqui). Digo "reassisti novamente" com o pleonasmo proposital de quem já foi uma mocinha viciada nos dramas existenciais de Rose Dawson, na flor dos seus 12 anos. nunca imaginei o impacto que esse dado teria na minha biografia pessoal.
Não sei se foi a TPM, o reveillon, ou-o-quê, mas confesso que me emocionei. Nos últimos momentos do filme, a Rose idosa afirma que Jack a salvara de todas as formas que uma pessoa pode ser salva. Jack, aquele artista pé de chinelo que entende de tudo -- desde dança irlandesa até pesca no gelo. Jack, cujos comandos firmes e exatos, aliados a sua profunda erudição sobre naufrágios, salvam a vida da então aristocrata mmada Kate Winslet. Jack, cujo desprezo pelas coisas materiais o leva até a dispensar sua vida por uma pessoa que acabou de conhecer. Jack, a figura beatnik monogâmica que toda garota de 12 anos gostaria de conhecer.
Crescemos, assim, esperando que uma pessoa dessas, Jack "I'm-flying" Dawson, nos salve das nossas próprias vidas mundanas, nos resgate, no exato momento em que não vamos mais aguentar e vamos pular de cima do navio.
Mas ninguém vem nos salvar, porque todo mundo está fazendo a mesma coisa: esperando ser salvo. Todo mundo vive a mesma vida mundana e mais ou menos, tanto os aristocratas no navio, quanto os artistas sem desodorante.
De repente, o erro do filme é não mostrar o quanto Rose salvou Dawson de sua vida mais-ou-menos.
Porque o amor é isso: salvar-nos uns aos outros dos nossos próprios naufrágios.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
into the wild

Finalmente assisti "Na natureza selvagem" (2007), apesar de ter tido o poster grudado no corredor da minha casa durante algum tempo.
É muito nostálgico, para mim, porque vivi uma coisa parecida e conheci algumas daquelas frases que o Alex dizia, distribuindo lições de vida para quem encontrasse.
E também porque o filme mesmo trata o menino com uma espécie de endeusamento. Dá para antever umas pontadas de inveja do Sean Penn, quando o moleque lê os beatniks no Grand Canyon.
É difícil não se apaixonar, de qualquer forma, porque de alguma maneira aquilo é feito exatamente para isso, para impressionar as pessoas. Em vez de "tô fazendo análise para superar os meus pais", você diz "estou me enfiando no mato para conhecer a verdade sobre mim".
Ah, as pessoas! - essa entidade que vive presa à sociedade, sem ter nada de verdadeiro no seu dia-a-dia. É muita presunção pensar que você faz uma viagem, queima o seu dinheiro, desce o rio de caiaque, faz meia dúzia de coisas ilegais e, pronto, não está mais ligado a nada. É meio o sonho americano, sei lá. A ideia é fazer uma "epic journey" (a expressão é de um documentário que traduzi) pra qualquer lugar, menos pra dentro de si, menos para os outros. Porque se você reparar, o Alex não se deixa emocionar por nada que não seja ele mesmo.
Droga, eu estou destruindo o filme de novo, não é? Mas, não liguem pra mim, o filme é lindo e talvez me mova exatamente porque tem muito de mim nele.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
salvar o mundo com glamour
"A maneira mais sincera de você interagir com o mundo é com os seus sentimentos" - surpreender essas coisas tem de ser das pessoas improváveis. Pessoas prováveis não te surpreendem: isso é o que significa probabilidade. E sentir, bem, parece mesmo a maneira mais sincera de interagir com o mundo, ele tem razão. Valeu, peiote.
Enfim. E o post de hoje é sobre: salvar o mundo com glamour.

Esse conceito, que eu acabei de sintetizar, escalou em segundos minha lista de coisas que eu mais odeio no universo inteiro. Passou direto pelo Julio Verne, por alguns professores da faculdade, pelo romantismo brasileiro, os buracos do asfalto, cerveja quente, descongelar a geladeira, filmes do Woody Allen, roupa de molho, meleca de nariz, salto alto e abacate e veio instalar-se exatamente ao lado da coisa mais odiosa de todo o planeta terra, e provavelmente todos os outros mundos de mais de duas dimensões: os talheres de plástico. Quem pensa em ajudar os outros como forma de pagar pela sua bolsa da Louis Vuitton só não é mais absolutamente odioso do que um instrumento com potencial de deixar continentes inteiros subnutridos: o garfo de plástico.
Quer dizer, julguem vocês. Eu só vou aproveitar o natal pra cozinhar o meu ódio.
Enfim. E o post de hoje é sobre: salvar o mundo com glamour.
Esse conceito, que eu acabei de sintetizar, escalou em segundos minha lista de coisas que eu mais odeio no universo inteiro. Passou direto pelo Julio Verne, por alguns professores da faculdade, pelo romantismo brasileiro, os buracos do asfalto, cerveja quente, descongelar a geladeira, filmes do Woody Allen, roupa de molho, meleca de nariz, salto alto e abacate e veio instalar-se exatamente ao lado da coisa mais odiosa de todo o planeta terra, e provavelmente todos os outros mundos de mais de duas dimensões: os talheres de plástico. Quem pensa em ajudar os outros como forma de pagar pela sua bolsa da Louis Vuitton só não é mais absolutamente odioso do que um instrumento com potencial de deixar continentes inteiros subnutridos: o garfo de plástico.
Quer dizer, julguem vocês. Eu só vou aproveitar o natal pra cozinhar o meu ódio.
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