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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Sobre supermercados (post encomendado)



Alguém me pediu para ser sincera com o mundo e dividir minhas fobias. LRP, esse post é pra você.

As pessoas que me conhecem sabem que eu tenho pânico de supermercado. Oferecem uma mão amiga uma ajuda, um apoio moral, para enfrentar esta que é uma experiência dura para a alma gentil e o espírito livre.

Dentre todos os supermercados, o que habita mais comumente meus pesadelos é o Extra, a loja do brasil.

Aquelas dezenas de corredores alinhados, prateleiras inteiras com a mesma marca de sabonete fazem a compra da semana se transformar em uma experiência excruciante. E depois de caminhar não sei quantos metros atrás das coisas que você precisa pra viver -- que devem ser exatamente as mesmas de que todos os outros seres humanos também precisam pra viver -- você dá uma olhada na sua lista e percebe que não tem guardanapo no seu carrinho de novo. De novo: nunca tem guardanapo no seu carrinho. Aliás, você não lembra de ter guardanapo em casa já faz algumas semanas (meses? talvez ano(s)). Será que você não passou pelas dezenas de estantes de guardanapo da mesma marca? Cadê o paredão de guardanapo? A resposta, caro Watson, é elementar: o guardanapo fica no segundo andar. Mas não na boca do segundo andar, junto com os colchões infláveis, os travesseiros de pena e as roupas de academia -- ele fica NO FUNDO do segundo andar, junto com as coisas de festa de aniversário.

Então, mais uma vez e de novo: foda-se o guardanapo. Vou continuar roubando do McDonald's.

E vou terminar este post porque estou ficando nervosa. (Note-se que eu nem consegui chegar na parte do caixa, provavelmente deixei meu carrinho lá no meio do extra  e voltei pra casa com as mãos abanando, sem guardanapo, sem travesseiro de pena, sem porra nenhuma).

quinta-feira, 14 de março de 2013

da aparente apatia

Olá.

eu sempre acho incrível o fato de que tem gente, realmente, lendo este blogue. e é por isso que é meio impressionante ouvir algumas pessoas perguntando se ele morreu, se ainda vou escrever alguma coisa, etc. mais surpreendente ainda é o que eu vou fazer a seguir, que é dar explicações. dar explicações para pessoas que eu não sei quem são, onde estão ou por que motivo estão lendo isso aqui que eu, por meu lado, estou escrevendo no meu novo lar, que é a sala de um amigo em Porto Alegre.

e eis que as explicações começam:

1) eu não estou escrevendo no blogue, porque resolvi escrever "de verdade". por isso entenda-se que estou me dedicando a transformar minhas ideias em textos que podem servir para a minha carreira acadêmica, o que, convenhamos, eu deveria estar fazendo desde o começo, mas escrever em blogues, sem responsabilidades de qualquer tipo, é efetivamente muito mais interessante;

2) não estou escrevendo no blogue, porque resolvi traduzir coisas que acho que são importantes para a humanidade (e também vão ajudar a minha carreira acadêmica), a saber, literatura policial;

3) porque eu estou pensando nisso




e é completamente assutador. e eu gosto das pessoas que se esforçam em pensar a literatura como um meio de se chegar ao outro. (tem estudos interessantes sobre literatura e direitos humanos, estou pensando em um texto do Dipesh Chakrabarty que deve estar encaixotado em algum lugar nessa sala, talvez do lado da bicicleta);

4) porque fui na feira plana, um evento de editoras independentes em sp, e comprei um livro super bonito da Raíça Bomfim e da Vânia Medeiros, que chama 10 pontes. Espero que elas não se importem de eu citar um poema:

Com quantas estradas se faz uma ilha?

errar até
encher as mãos
de terra e adivinhar
o azul

perder-se
fera e temerosa
na noite esplêndida
da matilha

um risco de cio
no vento
e pelo rastro
algum laço
há de vingar

errar até
que a embriaguez
permita

(Dá pra ver o quanto o livro é lindo aqui) que me deu vontade de publicar um livro tão bonito quanto, mas ainda não;

5) porque eu ando lendo as coisas errado e me enganando bastante;

6) porque, aparentemente, não é sempre que você pode contar com a sua habilidade de transformar tantas informações em um pacote relevante;

7) porque essa música começou a ter um sentido comovente



8) porque o personare disse que neste período específico eu tendo a exagerar as coisas;

9) porque eu não li quase nada interessante nos últimos três (quatro?) meses. a não ser o paulo henriques;

10) porque, no final, não tenho nada interessante a dizer;

11) porque mais alguma coisa que eu esqueci;

12) ah, porque eu descobri que o bolaño também lia Ursula le Guin.

espero que este arremedo de post sirva como post.

câmbio desligo.

domingo, 10 de março de 2013

El viaje

Este é, eu juro, o último papel que restou do meu quarto vazio, onde eu passei 6 anos de alegrias agridoces. Notem que ele sobreviveu, valentemente, à minha fúria assassina/budista de desapego material e emocional, o que faz dele, simultaneamente, a coisa mais corajosa à minha volta e a coisa que vai para o lixo depois deste post.

Eis o conteúdo do papel (não sei o que foi que eu escrevi e o que foi de outrem):

Eu ouvia chapinhar no barco
Os pés descalços
E pressentia os rostos anoitecidos, de fome.
Meu coração foi em pêndulo entre ela e a rua.
Não sei com que força me livrei de seus olhos
me safei de seus braços.
Ela ficou nublando de lágrimas sua angústia
Atrás da chuva e do cristal.
Mas incapaz de gritar-me: Espera, vou contigo!
Otelo Silva
Despedida de Guevara a Chichina
(Notas de Viaje)

[Essa é possívelmente a despedida mais cruel do mundo e a tradução mais mal feita. "Cristal" em espanhol, neste caso, é vidro.]

"Parecia que respirávamos mais livremente um ar mais leve que vinha de lá, da aventura. Países remotos, façanhas heróicas, mulheres bonitas passavam em círculo por nossa turbulenta imaginação"

"Agora sei, quase com uma fatalista conformidade, que minha sina é viajar, que nossa sina, porque nisso Alberto é igual a mim. Talvez um dia, cansado de rodar pelo mundo, volte a me instalar nesta terra argentina"

De tanto olhar para longe,
não vejo o que passa perto.
Subo monte, desço monte,
meu peito é puro deserto.
            Eu ando sozinha,
            ao longo da noite.
            Mas a estrela é minha.
(Canção da tarde no campo.
Cecília Meireles)
Natasha 5555-3871 


E com esse pedaço de papel, e a estranha mensagem que ele contém, me despeço de você, São Paulo. Me despeço também da solidão específica do meu coração.

Adeus.

R.

terça-feira, 3 de julho de 2012

não existe amor em sp?



antes de começar, gostaria de deixar claro que estou bêbada, mediante uma guinada radical na minha vida amorosa que o tarô definiu como o carro de cabeça para baixo, e o mendigo que mora embaixo da minha casa provavelmente definiria como "sarjeta". (eu também).

dito isso, podemos voltar ao tema principal. alguém por aí anda dizendo que não existe amor em esse pê. não existe amor em esse pê. ecoa nas cabeças de nós, radicados paulistanos, ou radicalmente não-paulistanos, como uma marreta, como as reformas contínuas das ruas e viadutos dessa cidade permanentemente engarrafada.

minhas definições de vírus foram atualizadas.

eu lembro aquele dia em que alguém teve que me segurar depois da balada para eu não cair no chão. não existe amor em esse pê? então, por favor, vocês me digam: que p*rra a gente está fazendo aqui, então? o que é que a gente passa todo dia? essas recessões amorosas, o vinho na madrugada olhando pro horizonte (que é bem aqui, no prédio da frente), esses dias sem sol, sem tempo livre, assistindo filme ruim na TV a cabo? o que é isso, senhor?

não existe amor em esse pê, senhor cantor? então me explica esse coração partido.

Att.

Vina

terça-feira, 12 de junho de 2012

carro

HOJE, NA VERDADE, eu não escrevi nada. Tô cheia de trabalho (viva!) e tive uma semana difícil. Así que vou ser cara de pau e postar um negócio que eu vi que tinha escrito no meu desktop. Pra vocês que são novos aqui, desculpe o dramalhão, mas os antigos já deviam estar com saudade de um autêntico vinadrama....


eu não aprendi mais nada na vida além de literatura.
não sei entrar no carro com o amor da minha vida e apreciar a paisagem: meus carros sempre batem.
numa árvore, no meio do caminho, o capô rasga, sem a menor intenção de sobrevivência e todas as coisas amassam e se quebram em pedacinhos.
o vidro cai em câmera lenta, como neve. as pessoas nunca aterrisam: ficam paradas no ar, os olhos bem abertos, de ponta cabeça, como um retrato.
todos os meus carros batem.
eu quero que você leve meu carro emprestado. pegue a chave da casa no vaso da planta, pegue a chave do carro na minha bolsa, enquanto estou dormindo na cama em que você não está.
tire o carro da garagem e vá assistir um show numa cidade aqui perto.
e no caminho passe correndo no pardal.
e no caminho bata o carro no meio fio e me ligue no seu nextel para ver se eu ainda tenho seguro.
e leia meu nome na porta do guincho e nunca mais esqueça.

terça-feira, 5 de junho de 2012

da capa à contracapa


HOJE EU ACORDEI pensando uma coisa bem besta. Que o ser humano é  um animal essencialmente paradoxal (olha, rimou): por um lado ele precisa viver em sociedade, constrói ponte, etc; mas tem que carregar dentro de si essa imensa solidão e a certeza de que tem algo dentro de si que é incomunicável.

A maioria das atividades humanas advém da primeira característica: a política, a engenharia, a música, o sexo, a astrologia, a escalada... Todas feitas a partir da magia da integração das pessoas a fim de fomentar, exatamente, essa mesma magia. Como um moto-contínuo. Não me leve a mal, não estou dizendo que a música não depende de uma etapa de criação, em que a pessoa tem que sentar sozinha no piano e arrancar as coisas de dentro de si, etc. Mas, para que serve a música? Num sentido bem figurado, aquelas centenas de pessoas que vão assistir a um concerto, todas juntas, ouvindo versões da mesma música filtrada pelos seus ouvidos danificados pelos sons da grande cidade. Ou aquela meia dúzia de pessoas, no aniversário da Cláudia, ouvindo pagode e dançando. Ou a música que toca quando a noiva entra no altar. Coletividade, Zeitgeist, catarse coletiva. Dá para se responder à música, dá para dançar ao som dela, ou vaiá-la.

Mas a literatura se alimenta da segunda característica. Diferentemente do músico, depois do momento de criação -- todos aqueles anos na frente do computador -- o resultado é uma obra que só pode ser fruída individualmente. Claro que você pode adaptar um livro para o cinema, ou lê-lo em voz alta, ou escrever uma peça, etc. Mas o livro-livro é destinado para uma fruição individual. Segundo o crítico argentino Damián Tabarovsky

"Se há algo que se opõe à literatura é a argumentação. A literatura é o que acontece agora, neste mesmo instante, o que advém irremediavelmente, e a experiência literária é a experiência desta ausência, da linguagem desbocada e nossa própria solidão. Solidão que é da própria obra. A obra não é afirmação, não é positividade, não é construção: ao contrário, a obra é um parêntese, a suspensão do mundo. A obra não dá sentido, o retira. Não gesta, ao contrário, a obra é a materialização sensível da anulação do mundo: a obra suspende." (p. 90)

Bom, não era exatamente isso que eu queria dizer.

PS: Este tumblr é muito legal.

terça-feira, 3 de abril de 2012

grandes republicações, última parte: o amor

11 de janeiro de 2006
eu já sei o que tem de errado com a gente. é tudo esteticamente errado, quando eu penso em você, quase arranco a unha do pé, e você espirra frenético como se tivesse alergia, a gente tosse quando se fala (interurbano) e as contas de telefone são sempre numeros primos, nada de proporção áurea.
eu te amo, e é sempre essa palavra brega, amor, te quero, meu pãozinho. e aqueles ursinhos abraçados e aquele cartao de coração, dia dos namorados, essa breguice toda.
freud explica. é assim. uma preguiça de fazer diferente: eu e você 4ever.


Domingo, Janeiro 15
todos os pes ficam frios quando deitam. porque pensam... juan preciado contava da mulher que sentia falta dos pes do marido em torno dos dela, como um pão no forno. pes quentes não são obrigados a pensar: eles caminham, eles amam. pobres os que sao condenados a estarem frios, pensando na saudade do caminho que traçaram para si por amor ou por necessidade - estranhos caminhos, para a mente, que pensa, enquanto o corpo trabalha.


terça-feira, 20 de março de 2012

achados e perdidos 2009

lembrei de outro projeto inacabado, pra aumentar a lista do post anterior. a ideia era escrever cartas de amor para uma pessoa desconhecida e enviar para um edereço aleatório em São Paulo. Mas aí eu comecei a pensar nos problemas diplomáticos: e se o endereço for comercial? e se a pessoa for casada e não conseguir convencer o marido/a de que o remetente é desconhecido? e se a pessoa quiser escrever uma resposta?

aí a solução era entregar para uma pessoa desconhecida de mim, mas conhecida de alguém por aí.

a primeira carta era um diagrama, daqueles com setinhas. (no meu caderno está marcado novembro de 2009)

você acha que o amor ainda é possível? --> não é uma pergunta retórica --> com isso, não estou tentando dizer que os tempos não são propícios para o amor --> mas você escreveria uma carta para um estranho... --> digo, uma carta de verdade: íntima e extensa --> sem se identificar, mas convencendo-o, sem a mais mínima sombra de dúvida, de nada mais nada menos que o ama?
                          ___> usaria palavras que já trocou com outra pessoa?
escreveria?---   ____> usaria palavras ditas por outros --> que você queria que tivessem sido suas ---> [balão pontilhado] "quando a gente se vê, o Sol nasce".
                       _____> ficaria acordada à noite, de madrugada, de manhã... ---> fantasiando o dia em que, sem avisar, usaria o endereço do destinatário --> num dia especialmente cinza e chuvoso --> para bater na sua porta --> e dar-lhe --> 1 (hum) --> beijo?
nossa, será que deu pra entender? que pena que eu não sei fazer os balõezinhos...

bom, depois da primeira carta, tinha dois esboços de cartas futuras. uma era essa:

Eu te amo tanto que o meu Destino dói [era antes do novo acordo ortográfico]
de te observar cruzando o meu caminho
pegando a minha mão
olhando no fundo dos meus olhos
arg. ainda bem que eu não sou diabética. segunda carta:

eu acredito no amor?
não sei.
definitivamente no amor dos outros: não existe coisa mais brega e artificial do que um casal de namorados.
só o que sei é amar estranhos. o amor é anônimo, não troca aliança, não faz jura, não trepa. é aquilo que, sozinhos, nos impede de dormir, para fantasiar sobre as causas do mundo.
o amor é aquilo que faz a gente feliz em pensar que há vidas em outros planestas.
quanta negação, meu deus.

tem umas melhores, tipo esta:
A chuva também é um símbolo. Representa a espera, a paciência com que a chuva cai sem sentido. Minha avó diz que a chuva é Deus. (Acho que nem ela entende o quanto isso é pagão). Mas eu sei por que agora, observando a chuva cair, e São Paulo ficando louca. A chuva não tem sentido, enlouquece as pessoas e a vida da gente, funcionando em uma simbologia completamente alheia a si mesma. Porque a gente não consegue entender as coisas que não fazem parte da nossa lógica tão humana: a morte, Deus e a chuva.
Só que a chuva cai, todo dia.
Será que o amor é como a chuva? Será que não entendemos o amor? Será que, na verdade, não entendemos as coisas que nos movem, por isso as deixamos morrer, nas viagens de ônibus, nas filas de banco, num copo de chope? [a letra está trêmula agora, acho que estava no ônibus]
Se o amor a paixão é tão etérea, de onde vem o toque? A vontade de se ver, de encostar, de tropeçar?
Ou será que estou errada? Será que a paixão não é como Deus?
Ou será que a paixão -- como Deus, como a morte, como a chuva -- em algum momento, precisa se materializar? Precisa se revelar como um livro secreto, que emerge nas palavras que trocamos, nas nossas cartas, num beijo... Será que nada pode ficar nas sombras da própria divindade? Como o próprio Deus, que precisa estar na Terra para tocar os homens, celebrar sua existência, descobrir seu próprio caminho? 
[ai, ai, devia ter lido Lévinas...]


enfim, tudo isso para dizer que, meu deus, o passado realmente é um país estrangeiro e que, no final das contas, todas essas cartas (com outras palavras, umas imagens bonitinhas e uns vídeos que podem me ferrar com o ecad) foram para vocês, meus correspondentes desconhecidos.

PS: este post é comemorativo dos 10.000 pageviews deste blogue. obrigada!

sábado, 3 de setembro de 2011

todo mundo quer ser artista

todo dia eu ando pela paulista. ao meio dia, disputando espaço com o exército de executivos que sai pra almoçar. às 18h, no olho do furacão, ouvindo a gritaria sem noção que a humanidade faz: caos e fúria, caos e fúria. (estranho que tenha sido shakespeare quem escreveu isso e não um morador de rua de São Paulo). aos sábados, com os homens quarentões fazendo cooper e os labradores que passam a semana escondidos nos apartamentos. de madrugada também, ameaçada de atropelamento pelos skatistas, testemunhando roubos e furtos e discussões de relacionamento.

o pior é o sábado à tarde, quando todo mundo quer ser artista.

todo mundo quer ver livro na livraria cultura e todo mundo tem a mesma opinião sobre os mesmos livros. um amigo vai com outro amigo e aponta um livro que é ótimo com certeza, todo mundo diz, mas ele ainda não leu. dá um pequeno resumo do enredo, fala sobre o autor, mas nenhuma informação tem absolutamente nada a ver com o que ele está apontando.

todo mundo quer ir ao cinema. fazem-se filas enormes nas mesmas salas para assistir aos mesmos filmes. ninguém quer ver filme cult no shopping, por exemplo e todo mundo só quer ver aquele que ganhou cannes. ou que a pessoa acha que ganhou cannes, tipo melancolia do lars von trier, que é um diretor americano que costumava fazer filmes com o vin diesel.

todo mundo quer passear pela rua, se inspirar nos grafittis de imagens cults espalhados pelas paredes. todo mundo quer almoçar no boteco pé sujo. todo mundo usa short e bota quando está frio. todo homem deixa a barba crescer e usa cachecol.

todo mundo repara que o sol saiu e todo mundo viu o último episódio do seriado famoso.

todo mundo quer ser artista. não qualquer artista: todo mundo quer ser o mesmo artista, aquele que gosta daquele mesmo filme, daquela mesma banda, que entende de moda, da mesma moda, que é o jeito que as pessoas costumavam se vestir em londres no verão passado. todo mundo quer ter bom gosto e requinte, entender tudo sobre arte e tomar um vinho como um verdadeiro sommelier.

ninguém sabe que estação do ano estamos.

domingo, 10 de abril de 2011

silêncio. cadeiras ao contrário.

Silêncio.

O público está disposto em cadeiras quadriculadas, formando um quadrado de proporções áureas.

abre a cortina.

bom dia. hoje, senhores, todos vocês foram vacinados contra o lirismo. se alguém for pedante aqui neste palco, vocês não ouvirão. haverá uma pausa dramática, ou o barulho de um rojão, dependendo do metabolismo de cada um.

(mulher): é difícil escrever uma história com "nós". há o sol, há um negócio cinza que aqui em são paulo chamamos de... "céu". há o mar, que existe só no pensamento. e existe eu.

bom dia. hoje, senhoras, vocês foram vacinadas contra uma coisa muito especial, que se chama amor. se alguém sentir algo parecido com uma calentação dos sentidos, uma falha na apatia geral que comanda nossas vidas, esta pessoa sofrerá combustão espontânea. e isso é bom, porque dentro de instantes ficaremos sem luz.

(apaga a luz)

(labareda) eu uma vez quis atravessar à noite um rio. vocês sabem como os rios são, intempestivos. eu fiz como os ginastas, aquela pose, enchi a mão de talco e pulei. o rio pegou fogo. um rio pegando fogo será a personificação absoluta de uma palavra chamada arrependimento.

(mulher) teatro é como cinema três dê. mas não é. porque os atores gritam e têm essa dicção absolutamente artificial. nunca queiram ser atrizes, meninas, porque nunca mais vão conseguir reconhecer uma voz verdadeira.

terça-feira, 15 de março de 2011

24/02/2011

O TRUQUE É nunca usar palavras bonitas. não usar palavras, de preferência -- há milênios, os sábios têm nos avisado dos ardis mal intencionados da comunicação verbal. por algum motivo nebuloso, ainda acreditamos que somos capazes de aprender efetivamente com as coisas que as pessoas dizem. a existência tem uma didática impossível, daí todos os livros de auto-ajuda.

tem muitas palavras no mundo -- isso já é um bom motivo para não dizermos nada: controle populacional -- como aquelas palas ecológicas: tem muito mosquito, coloca sapo, tem muito sapo, coloca jacaré. tem muita palavra e tem muito livro.

então vamos só sentar em silêncio e olhar um pro outro.

sexta-feira, 4 de março de 2011

amanhã de manhã, sei que vou me arrepender deste post. nada sai de bom quando você chega em casa do boteco, tá com a cabeça pesada demais pra pensar e está se preparando pra dormir. sozinha, é claro, o que não é necessariamente ruim. solidão pode ser um troço altamente viciante e faz muito sentido racionalmente, o que é bizarro, bizarro.

às vezes, a gente é um caminhão desgovernado descendo o barranco. mas às vezes, a gente é só a gente, aqui, empilhada no meio de um monte de livro, e isso não pode ser necessariamente ruim.

aprendi com o wall-e que as coisas podem florescer nos lugares mais inóspitos, tipo o meu quarto.

não aprendi muitas mais coisas.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

faxina te faz encontrar umas coisas

"Qual é a virtude de um texto assim tão claro, que se entrega tão completamente, que é tão fácil de entender? Virtude não tem. A virtude literária exige um certo hermetismo, que dá emprego aos críticos literários e também certa sensação de fracasso. Em certa medida, um bom romance provoca um fracasso de entendimento..."

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

into the wild


Finalmente assisti "Na natureza selvagem" (2007), apesar de ter tido o poster grudado no corredor da minha casa durante algum tempo.

É muito nostálgico, para mim, porque vivi uma coisa parecida e conheci algumas daquelas frases que o Alex dizia, distribuindo lições de vida para quem encontrasse.

E também porque o filme mesmo trata o menino com uma espécie de endeusamento. Dá para antever umas pontadas de inveja do Sean Penn, quando o moleque lê os beatniks no Grand Canyon.

É difícil não se apaixonar, de qualquer forma, porque de alguma maneira aquilo é feito exatamente para isso, para impressionar as pessoas. Em vez de "tô fazendo análise para superar os meus pais", você diz "estou me enfiando no mato para conhecer a verdade sobre mim".

Ah, as pessoas! - essa entidade que vive presa à sociedade, sem ter nada de verdadeiro no seu dia-a-dia. É muita presunção pensar que você faz uma viagem, queima o seu dinheiro, desce o rio de caiaque, faz meia dúzia de coisas ilegais e, pronto, não está mais ligado a nada. É meio o sonho americano, sei lá. A ideia é fazer uma "epic journey" (a expressão é de um documentário que traduzi) pra qualquer lugar, menos pra dentro de si, menos para os outros. Porque se você reparar, o Alex não se deixa emocionar por nada que não seja ele mesmo.

Droga, eu estou destruindo o filme de novo, não é? Mas, não liguem pra mim, o filme é lindo e talvez me mova exatamente porque tem muito de mim nele.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

420

Às vezes eu acho que a minha vida
tem mais prédios do que gente.

Tem mais torcedores do corinthians
tem mais sirenes
do que ar.

Uns dias eu penso na Sé às seis da tarde
e fumo um cigarro com a mão esquerda.
Mas eu detesto fumar.

Olho para a rua e penso:
quando a síndica vai descobrir
que somos nós as que jogamos a bituca de cigarro
no pátio do prédio.

-- tudo isso enquanto espero
a água do miojo

ferver.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

retrospectiva inútil


ANALISANDO psicologicamente os sucessos do último ano, cheguei a duas explicações:

A) é tudo culpa sua;
B) nada é sua culpa.

Sendo que A pressupõe que o mundo inteiro gira à sua própria vontade, todos os eventos poderão ser previstos e evitados a partir de sua maior predisposição -- ou menor -- para aceitá-lo a princípio.

Já B leva como dada a visão de que, ao contrário, o mundo inteiro é um pequeno globo caótico, cujos eventos são completamente alheios às pessoas envolvidas, cujo papel, por sua vez, é serem arrebatadas, ao léu, pelos caprichos do universo.

Não aceitar A ou B significa, como alternativa, pensar que algumas coisas, por mais semelhanças que tenham com as outras, não são paradigmáticas -- mas que outras sim -- e parte pode ser compreendida como uma predisposição pessoal e parte não. E que nunca saberemos identificar qual é qual, a não ser que apelemos para os caminhos sobrenaturais. Que a astrologia e a psicologia levam ao mesmo tipo de conhecimento sobre si e que a melhor opinião sobre se os seus planos vão dar certo, ou não, pode ser bem da sua mãe quanto do tarot.

E é por isso que acho mais fácil acreditar em Deus.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

angústias acadêmicas 2099 - parte 3

ANOTAÇÕES de aula:

Inscrever meu desastre no rol de todos os desastres, os terremotos do Haiti, os famintos da recessão do Laos, a miséria e a pobreza, a solidão. e o balão branco -- ah, o balão branco! aquele que me afastou para sempre do cinema iraniano.

terça-feira, 20 de abril de 2010

a piracema

UMA COISA que me pira é tinta. de caneta. aquele cheiro que chega quando a mão já está doendo, e a cabeça se sente um pouco esvaziada de ideias fixas, torturantes, que agora já não exigem uma responsabilidade cruel.

escrever o que quer que seja é isso, a psicanálise sabe bem. quando escrevemos, nem que seja um recado de telefone, um lista de compras, estamos alforriando nossas cabeças de uns grilhões incomensuráveis que é essa responsabilidade imperativa: fazer as coisas significarem.

escrever é o que gera o ato: uma revolução do tamanho de uma chamada respondida, de encher a geladeira de comida para os demais e propiciar um café da manhã saudável.

essa exigência às vezes extrapola. às vezes, a revolução extrapola. às vezes é o desafio de escrever que é enorme, fazer as coisas significarem outras coisas, potencialmente perigosas. e é por isso que eu passo um mês sem atualizar o blogue.

quinta-feira, 18 de março de 2010

tu beso se hizo calor

QUAL FOI o caminhão que me atropelou? (posts de manhã nunca dão certo).

e todo mundo procura neles o que aconteceu com você. isso tem no tuíter. o que tem aqui é uma viagem sobre as coisas, raramente elas mesmas.

não é uma poética do blogue, eu tentei que fosse outra coisa. no começo era o verbo, ou a luz, e agora é o sacrifício de abraão.

involuímos.

esse blogue era feito de amor, amor pelas coisas. mas é justamente o amor a matéria prima escassa do mundo, mais que o petróleo, mais que o diamante, mais que tinta de impressora.

essa semana eu vou ser uma pessoa melhor. a cada semana, devagar. cumprindo pequenos objetivos.

infelizmente, um deles é passar menos tempo na internet.

espero vê-los em um momento mais oportuno.

quinta-feira, 11 de março de 2010

ÀS VEZES, eu fico pensando nos avatares das pessoas mortas no orkut. parece que elas estão lá para nos dizer o quanto é difícil elaborar a perda, o quanto a ausência é uma coisa física.

e quanto os meios digitais dão aos eventos da vida faces muito diferentes.