domingo, 11 de maio de 2008

cova de montesinos

eu disse: estou cansada. mas vou escrever, como vocês já devem ter notado. e esse post vai ser da grande série querido diário. não, não vai ser, eu me rebelo! vou contar a história de outra pessoa que, por acaso, terá uns traços muito parecidos com os meus. (tive outra idéia para um filme hoje e esqueci de novo) (acho que em algum lugar deve estar escrito "aqui jazem as idéias esquecidas da vina", onde um curioso poderá achar as minhas memórias perdidas das praias do rio de janeiro, a comida que eu mais gostava quando era bebê, a primeira vez que eu disse "eu te amo" para alguém e o lugar exato da casa da minha avó onde eu estava quando o brasil ganhou nos pênaltis em 94) (ah, não, dessa eu lembro). o quixote já entrou na cova de montesinos. me identifiquei, na verdade, porque a minha irmã sempre diz que eu invento as minhas memórias de infância. até um tempo atrás eu podia jurar que eu lembro a primeira vez que andei de avião. eu tinha 1 ano.

arquivo de memórias de vina apsara, idade 7 anos, localidade desconhecida.

vina viajava com seus pais há vários dias. a intenção, ela suspeitava, era perder-se em entranhas desconhecidas deste país com nome de commodity. Brasil é. na bem da verdade, não era teoria dela, mas de sua mãe, já bastante angustiada com a idéia de dormir em mais um hotel fedorento. (a idéia também era não gastar dinheiro). se ela soubesse que era a última viagem que fariam como uma família, bem... acho que não teria feito tanta diferença, considerando a quantidade de baratas que transitavam no colchão do último hotel que ficaram. o pai foi o único que viu, ninguém mais ficou sabendo.

era um dia muito quente. que dia era? toda a idéia de perder-se gerou um vácuo desagradável no tempo-espaço. não existia mais destino, nem permanência, nem duração. mas ninguém no carro era físico para notar que a anomalia: estavam todos muito ocupados observando a lua se intrometendo no meio do dia empoeirado de fumaça de estrada.

mas que saco, minha bunda está doendo - pensou alto a irmã, que não podia xingar. ninguém ouviu. o dia descia pela direita, e eles nunca chegavam. aonde estavam indo? o pai não quis responder. não sabia a resposta e não queria represárias.

ninguém sabia qual era a vontade que impelia a viagem, mas era claro que havia uma. sem querer especular, poderia dizer que pressentiam que era um sonho de alguém se concretizando, uma última esperança, um desejo longamente adiado.

pararam. desceram. era outro hotel.

vamos ficar por hoje, amanhã a gente caminha por ai e decide. um hotel de trânsito: em cada quarto, duas camas. uma delas não tinha colchão. por todo lado, um cheiro forte de poeira. só por hoje, sim - o consentimento. as crianças só esperavam esse momento. é como se dissesse, uma vozinha de comando, que era hora de acabar.

desta vez, as baratas logo se apresentaram. o pai estava exausto demais para dirigir, encontrar outro lugar. então, a mãe não dormiu a noite toda. as crianças estavam sempre felizes.

no dia seguinte era meu aniversário. não fiquei triste porque ninguém lembrou, pelo contrário. era a primeira vez que era adulta o suficiente para lembrar os meus pais. pela primeira vez, a data deixou de ser criação deles e se tornou autônoma e independente. eu escolhi meu próprio presente.

absolutamente inesquecível.

2 comentários:

Bruno disse...

Adorei o texto. :0*

Doda disse...

Hotel de trânsito nãooooooo...

Lembra quando eu dormi no berço mesmo não cabendo nele?

Beso