eu queria ter feito um texto pessoal sobre o assunto, mas confesso que nao estou profundamente envolvida nos acontecimentos que se desenrolaram na universidade de sao paulo na ultima semana.
fui testemunha ocular, entretanto, da entrada e da saida dos policias militares portando metralhadoras, fazendo guarda na frente da reitoria da usp.
desse texto do prof vladimir safatle que virá a seguir, só discordo da parte que fala a respeito da indole dos estudantes. sinceramente, nao importa se o estudante desarmado, que está levando bala de borracha na cabeca, frequenta constantemente a biblioteca ou se passa as tardes fumando maconha na frente do predio da historia. apesar de muita gente pensar que os manifestantes sao vagabundos, isso so mostra a truculencia da nossa sociedade, que no fundo está argumentando que vagamundo tem que apanhar, tem que ser preso, tem que passar mal por gas lacrimogenio (so quem respirou isso sabe o que é, de verdade...).
também vi o estado da usp na quarta feira, quando os motoristas dos onibus que entram na cidade universitaria se negavam a entrar no campus, porque as bombas as vezes batiam no vidro ou mesmo entravam no onibus.
sem mais delongas...
AS CENAS de batalha campal que vimos nesta semana na USP ficarão na
memória daqueles que dedicam sua vida a essa instituição. Vários
professores, como eu, que nunca participaram de movimento sindical,
que nem sequer foram alguma vez a uma assembleia, veem com
estarrecimento a disseminação da crença de que conflitos trabalhistas
devem ser resolvidos apelando sistematicamente à polícia.
Diz-se que a polícia era necessária para evitar piquetes e
degradações. No entanto, tudo o que ela conseguiu foi acirrar os
ânimos e aumentar exponencialmente os dois.
Vale a pena lembrar que, por mais que sejam práticas problemáticas que
precisam certamente ser revistas, os piquetes estão longe de se
configurarem como ações criminosas. A história das sociedades
democráticas demonstra como eles foram, em muitos casos, peças
necessárias de um processo de ampliação de direitos. Cabe a nós provar
que esse tempo passou e que, devido à capacidade de diálogo, tais
práticas não têm mais lugar.
No entanto, quando se tenta reduzir manifestantes que procuram
melhorias em suas condições de trabalho a tresloucados patológicos que
nada têm a dizer, que não têm nenhuma racionalidade em suas demandas,
dificilmente alguma forma de diálogo conseguirá se impor.
Melhor seria começar explicando qual racionalidade justifica que a
universidade mais importante do país, responsável por parte
significativa da pesquisa nacional, tenha salários menores que os de
uma universidade federal em qualquer Estado brasileiro.
Por outro lado, há algo incompreensível na crença de que a polícia
possa ser chamada para mediar conflitos com alunos e funcionários
públicos. Muitos acreditam que ligarão para o 190 e receberão uma
espécie de "polícia inglesa" capaz de agir de maneira minimamente
adequada diante de cidadãos que se manifestam.
Contudo, o que vimos até agora foi uma polícia que entrou pela
primeira vez no campus armada com metralhadoras, quando a ação padrão
deveria ser, nessas situações, agir desarmada. Quem tem uma
metralhadora nas mãos imagina que porventura poderá usá-la. Mas contra
quem? Contra nossos alunos? E quem decidirá o momento de usá-la?
Como se isso não bastasse, uma polícia bem preparada não responde a
provocações de gritos e latas com bombas de gás lacrimogêneo e balas
de borracha usadas na frente da Escola de Aplicação e de uma faculdade
em que, normalmente, há crianças e adolescentes. O que aconteceria se
uma bala de borracha atingisse uma criança, ampliando um pouco mais o
enorme contingente de balas perdidas disparadas pela polícia?
Antes de ligar para a Polícia Militar, valeria a pena levar em conta
seu despreparo manifesto em intervenções em conflitos sociais,
histórico catastrófico mundialmente criticado por órgãos
internacionais.
Nenhum leitor terá dificuldade de se lembrar de situações de conflito
social nas quais policiais que se sentiram acuados reagiram de maneira
descontrolada, provocando tragédias.
Por fim, contrariamente a certa ideia que um anti-intelectualismo
militante gosta de veicular nestes momentos, vários alunos alvos de
balas de borracha são extremamente dedicados em seus cursos,
participam sistematicamente de colóquios e programas de pesquisa,
apresentam "papers" em congressos e podem ser constantemente
encontrados em nossas bibliotecas.
Sendo certo que vêm de todas as faculdades de nossa universidade (e
não apenas da área de humanas, como alguns querem fazer acreditar), é
inaceitável tratá-los como delinquentes potenciais. Dentre os 2.000
estudantes que se manifestaram nesta semana estão alguns de nossos
melhores alunos.
Em vez de estigmatizá-los, talvez seja o caso de se perguntar contra o
que eles se manifestam, já que, é sempre bom lembrar, antes da entrada
da polícia, nem professores nem alunos estavam em greve. A greve
restringia-se a funcionários.
Há um mês, em uma pequena cidade francesa, a polícia recebeu um
chamado de possível furto. Em uma atuação "exemplar", ela estava em
alguns minutos no local do crime. No entanto, o local era uma escola,
o objeto furtado, uma bicicleta, e o possível ladrão, uma criança de
dez anos. Sem pestanejar, a polícia retirou a criança da escola na
frente de seus colegas, levou-a à delegacia, colheu seu depoimento e a
fichou.
Possivelmente, foi contra esse modelo social baseado na incapacidade
de resolver conflitos sem apelar à mais crassa brutalidade securitária
que hoje nossos alunos se manifestam. Cabe a nós mostrar a eles que a
história da USP é outra.
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VLADIMIR SAFATLE, 36, é professor do Departamento de Filosofia da
Universidade de São Paulo