domingo, 13 de março de 2011

15/12/2010

EU POSSO ir ao aeroporto e pensar no que as pessoas fariam se não tivessem que esperar mais de uma hora para entrar no avião.

Pensar o que seria de mim se tivesse uma vida pessoal.

Posso perguntar para o cara do lado se me empresta o laptop para eu ver o meu e-mail. ele vai me perguntar por que as minhas unhas têm mais cor de bala do que a bala que eu tô comendo.

"pessoas adultas comem castanhas" -- diria ele. eu pensaria automaticamente na menina tola que eu era antes de vir pra São Paulo. "esta cidade não é para mocinhas", me disse, com o olhar, o cobrador do primeiro ônibus que peguei para o aeroporto. aprendi que náo se levam malas que não se possam carregar.

café. o homem do lado me chamaria para tomar um café. diante do meu olhar contrariado, emendaria a possibilidade de um capuccino, quem sabe, um chocolate quente... não saberia, até que eu dissesse, que essas coisas fazem muito mal pro meu estômago antes de voar. muitas coisas me fazem mal antes de voar.

depois do constrangimento do cara ao lado pelo insucesso de sua proposta -- ele, na vida real, não na minha imaginação, ainda está navegando na internet --, depois de constrangê-lo, eu o chamaria para tomar um suco de laranja, o que atestaria uma certa inocência falsa da minha parte. ele riria, um pouco para me constranger (é invetivável aproveitar-se de uma oportunidade de vingança), depois diria que eu poderia ter o meu suco de laranja, mas que ele ficaria com o caf[e. claro que o paternalismo me incomoda: meus braços e ombros estão tensos, segundo o Discovery Channel, preparados para fugir de qualquer ameaça, incluindo o tédio colossal. ele diria "o que você faz?" e quando eu respondesse "eu estudo", escolheria mentalmente entre me perguntar "mas trabalha em quê?", ou fazer um comentário ao estilo "ah! como eu queria poder ficar estudando, sem me preocupar com nada...!", sem saber, aparentemente, quão igualmente cretinas são as duas alternativas.

na vida real, ele larga um pouco o computador para falar com o homem ao seu lado. os dois vestem terno.

ante qualquer das alternativas de diálogo, a conversa já estaria acabada para mim. não escutaria quando começasse a tagarelar sobre seu trabalho, funcionário público num município XYZ do Alagoas. e nem que a sua perspectiva de carreira envolve um MBA na fundação getúlio vargas, que não irá começar agora porque o tempo não permite. ignoraria completamente seus olhares e seus sorrisos amarelos (manchados de café). não prestaria atenção no fato de que ele mesmo estaria bem menos interessado no seu próprio monólogo do que em alguma parte inconveniente do meu corpo.

e aí o Discovery channel poderia descrever como meus braços e ombros tensos se transformam, sutilmente, em evasivas rapinas. vou ao banheiro e não volto. me esquivo. e como bom homem que é, nunca refletirá a respeito do que aconteceu.

as mulheres, diz-se, são seres misteriosos.

Um comentário:

LRP disse...
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