terça-feira, 11 de outubro de 2011

trem



Antes de chegar em Buenos Aires no primeiro dia da primavera, tinha tido um sonho estranho em que uma das minhas amigas que agora mora lá me dizia, com alguma desdém, “Buenos Aires já não é mais como você se lembra”. 4 anos distavam este sonho da minha última visita à cidade, da qual eu já guardava uma imagem distante, de forma que o aviso fazia algum sentido.



No sonho, eu descia do desconhecido Aeroparque e caminhava pela cidade, pelas largas calçadas que eu lembrava tão bem e via anúncios escritos em português. Na tentativa de finalmente treinar meu espanhol enferrujado, recebia uma represária de um portenho: “mas a boluda não sabe que agora em Argentina se fala português? “ A boluda não sabia e pediu desculpas. Na verdade, veio a notar rapidamente que não falavam português. Era um português língua segunda, um espanhol traduzido toscamente, em que as indissincrasias típicas do portenhês se mantiam, estóicas. (Acho que estoica não tem mais acento).



Na vida real, desci do aeroporto desconhecido Aeroparque e tomei um taxi com a minha amiga. Com certo alívio disfarçado verifiquei que o motorista falava espanhol. Mas do outro lado da calçada, os bosques de Palermo, a biblioteca nacional, alguma coisa faltava. Só fui entender depois de meia dúzia de interações comerciais que me disseram o que aconteceu enquanto eu estava longe: a Argentina quebrou. De vez. Um brasileiro lá é uma espécie de novo rico, como a Kathy Bates no Titanic. A gente esconde dinheiro no fogão e depois acende o forno.



Não foi uma descoberta brilhante, as pessoas têm me descrito exatamente o mesmo quando vão visitar a Argentina. Mas é tão bizarro... Como se os prédios estivessem se desfazendo e as pessoas perdendo completamente a própria identidade. Da primeira vez que estive lá, em 2004, se falava muito sobre isso, na rua, mas eu pensava que era uma questão de auto-estima. Não é. O que o argentino foi um dia é passado, Buenos Aires guarda muita pouca semelhança com a cidade que era há 15 anos. É como se a história, de alguma forma, tivesse abandonado os planos brilhantes que tinha para este lugar e se esquecido dele.



Uns dias depois, estava empreendendo uma dessas viagens impossíveis pela Zona da Mata mineira. Qualquer pessoa que já tenha visitado essa região sabe do que eu estou falando: impossível chegar em uma cidade a 100km sem passar por todos os pontos de ônibus de todos os municípios, vilarejos, povoados, ao redor -- o que faz que esse trajeto tenha a duração de, aproximadamente, 5 horas, isso se ele for possível. Isso se uma das cidades não estiver alagada. Isso se tiver ônibus.



Encontrando, portanto, paciência em lugares onde anteriormente funcionava o setor da minha vontade de viver, comecei a preguiçosamente prestar atenção na paisagem. Todo caminho era feito em cima, ou em volta, da antiga linha de trem, aquela construída no início do século e depois ampliada, num movimento muito mal planejado que levou ao sucateamento e consequente final da operação ferroviária naquela região e, finalmente, no resto do Brasil.



De repente, aparece uma casinha de madeira na beira do rio (acho que é o rio Muriaé) que diz “esta é a primeira hidroelétrica do Brasil”. Ali, meio no mato, no pé de um riozinho. Não pude evitar pensar o quanto aquela região -- com a linha férrea, com a energia hidroelétrica -- foi planejada para ser o umbigo do mundo, a joia da tecnologia brasileira, assim como Buenos Aires, ou Montevidéu foram planejadas como uma cidade europeia, uma espécie de farol da cultura latino-americana.



Tem um romance de um escritor cubano, António José Ponte, se não me engano, que chama La fiesta vigilada. É sobre Cuba. Na melhor passagem do livro, depois de descrever o processo de censura e ostracismo que sofria na ilha em paralelo com a doença degenerativa da sua avó, ele aproxima as duas imagens. Ele diz que Cuba era o momento em que tinha que bater na avó com uma vassoura para ela parar de defecar pela casa.



Testemunhar a falência de um projeto deve ser então, eu imagino,como fazer parte de um mundo que assiste a uma parte de si ficar senil. E quem é que pode prever isso? Quem é que pode dizer o destino de uma cidade, de uma pessoa, de uma família? Quem sabe quem é que vai e quem fica?

6 comentários:

Pedro Martins disse...

tem um livro muito bom que descreve esse sentimento de repentina desapropriação da própria grandeza. O Istambul do Pamuk. Vale a pena.

vina apsara disse...

desapropiação da grandeza é bem a expressao que eu estava procurando... é um sentimento meio geopolítico...

Tudo de Novo Outra Vez disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Tata Marques disse...

Muito bom o texto. Sobre a Zona da Mata eu teria algumas pequenas considerações a fazer, mas deixa pra lá. Estou com preguiça de escrever. A primeira usina do Brasil, por acaso, é aquela um pouquinho antes ou depois de Leopoldina? Acho que reconheci esse cenário.

vina apsara disse...

Isso mesmo, Tata. É aquela em Leopoldina mesmo. O caminho que eu fiz foi entre Muriaé e Juiz de Fora, tem muitas paisagens bonitas do lado da rodovia.

Eu acho que não quis dizer "deixados para trás" de verdade. Não acho que ser uma cidade como SP, por exemplo, seja "ir para frente", só queria usar um vocabulário desenvolvimentista. A zona da mata é um lugar muito mais interessante, bonito e singular que o ABC. Mas eu gostaria muito de ouvir as suas considerações!

Tata Marques disse...

Então, muito em breve te mando um email. =)