segunda-feira, 30 de junho de 2008

fin.ni.to

Durante a tentativa de resgate dos sobreviventes, uma equipe de bombeiros encontrou nos escombros do World Trade Center um celular visualizando a seguinte mensagem:

"Luv u

dunno what it means..."

Neste exato momento, numa escavação à procura das fundações quarta pirâmide de Tiwanaku, dedicada aparentemente aos sacrifícios às divindades estelares, um grupo de estagiários encontrou um ideograma em que o pico Ilimani - símbolo da atitude devocional - estaria indicado ao contrário e cindido na base. Não se sabe o que significa.

Uma semana depois, um samurai decepou a cabeça do seu melhor amigo.

Na mesma noite, uma estrela cadente mostrou-se ser parte dos fragmentos de Sputnik.

Ao amanhecer, uma expedição comandada por lingüistas da universidade de Calcutá encontrou o funeral da última falante de uma língua dravídica pretensamente extinta há mais de dois mil anos.

No Brasil, uma garotinha descobriu o significado da palavra "remoto".

Enquanto isso, um senhor mexicano, na última noite da sua vida, lembra-se, em sonho, das exatas palavras que usou para convencer sua esposa a lhe dar seu telefone.

Um adolescente iraniano vê o livro que está lendo ser lançado pela janela.

Uma família na Venezuela se prepara para um batizado.

Dois homens carregam os móveis de um antigo conde para o lugar em que serão leiloados.

Um neném na Zâmbia engole a aliança de sua mãe.

Um estudante de contabilidade cai no sono em um banco de uma praça na Bielo-Rússia.

Um jovem fidalgo espanhol desce de um navio no Novo Mundo.

Quatro cães latem para o mesmo espaço vazio.

Um varal balança na chuva, enquanto uma senhora tenta em vão impedir que as roupas se molhem.

Uma mulher tenta energicamente explicar ao seu marido que todas as coisas têm a mesma razão de ser, no instante em que acontecem, não importa o propósito a que sirvam no momento.

Mas ele ainda não deixa de pensar que estamos pairando, ao leu, em um universo que não entendemos.

5 comentários:

Bruno disse...

Acho que vou chover no molhado, mas eu adoro quando você escreve. Acho que o nonsense foi sintomático de um processo...seja lá o que isso signifique.

lili disse...

eu tambem adoro!
adorei a menininha do 'remoto'

Polux disse...

Sempre me falta inspiração pra comentar, pq não quero que seja só um "adorei seu texto!", sempre quero deixar algo que incentive de verdade, quando gostei mesmo. Mas acho que nunca é ruim ouvir:

"Gostei MESMO do seu texto"

júlia disse...

'e, me identifiquei direto com o 'remoto', quel haha

Paulo Rená disse...

Isso me remeteu ao filme que você teve a generosidade de me "fazer" assistir, o Adaptação, naquela hora que o palestrante paga o maior sapo para quem pensa que nada acontece na vida. E o pobre do roteirista só pensando na vida tediosa dele próprio, coitado.