terça-feira, 30 de junho de 2009

Tec-tec-tec é o barulho que faz o teclado quando se digita, indistintamente, qualquer coisa. E ele nos serve para termos em mente que a palavra escrita, em si, é indistinta, como conjunto de letras que se combinam aleatoriamente e cujo resultado -- quase como um golpe de mágica exultante e igualmente arbitrário -- é passível de sucesso. O que diferencia uma conversa no messenger de um romance?

A supremacia dos escritores.

Os autores, como entidades sociais, são aqueles que podem livremente empregar a palavra "eu", naquilo que dizem ou escrevem. Aliás, não só podem como devem fazê-lo, uma vez que a negação ou a hesitação em relação a revelar-se como indivíduo pode suscitar reações psicanalíticas violentas por parte da opinião pública. Nada que um escritor escreve pode ser fictício. Tudo tem lastro na sua formação pessoal.

O que é diametralmente oposto a qualquer outra forma de texto, que sim, deve esconder seu autor como se fosse, nas belas palavras de Douglas Adams, o último número primo. Não só isso, mas seu conteúdo deve expressar toda a indiferença que caracteriza a condição humana, tanto em relação ao mundo, quanto a si mesmos. Assim, se o fictício é aquilo passível de ser psicanalizável, o não-fictício é aquilo incapaz de mobilizar todo e qualquer tipo de emoção.

Dentro dessa relação bilateral, em que a definição de um representa a contra-definição do outro, temos a famigerada internet, esse terrorista literário sem precedentes. Incapazes de entender o seu significado, os textos virtuais, quer sejam blogues, twitter, email, são a voz do obscurantismo medieval que reaparece para deixar o mundo nas trevas. Tão inefável como Deus, seu percurso no universo contemporâneo atualiza Hamlet, colocando mais uma coisa entre o céu e a terra que a nossa vã filosofia não alcança.

Essa medida de força entre as três tendências: o ficcional, o não-ficional e o obscuro -- é a batalha travada nos ideais mais profundos de nós, leitores de má índole, dispostos a tudo. Nossa ignorância abismal nos afasta dos grandes clássicos e nos joga, selvagemente, aos pântanos de um universo pré-ilustração, em que a terra continua plana e rodeada por monstros marinhos. Caimos.

Agora, estamos em busca de algo maior.

5 comentários:

coelhoraposo disse...

ufa! é isso aí, disseste tudo. A questão da alteridade na internet é muito mal resolvida, no fundo somos todos autistas presos em nossos mundos de bits, kbps etc etc etc. apesar da minha relação de amor e ódio com a antropologia, acho que ela é um dos poucos caminhos alternativos a esse mundo tomado pela confusão relacional e identitária que é o mundo em que vivemos.

uma catarata de beijos
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ps. fiquei curioso com o Bolaño. Quero conhecê-lo, que livro me indicas para me adentrar em seu universo: os detetives selvagens, amuleto, noturno do chile, putas assassinas ou a pista de gelo?

vina apsara disse...

eu comecaria pelo que eu comecei, o chamadas telefónicas. não li pista de hielo ainda. o detetives selvagens é um dos livros da minha vida, mas é meio pancada no começo. o putas é muuuito legal, mas tem altos e baixos. e o noturno no chile é o único deles que não me interessa muito, não sei porque. e é tb muito diferente dos outros.

ah, thiago, nao sei se a internet é tao mal resolvida assim, quer dizer, estamos aqui, né?!

coelhoraposo disse...

o problema com o "chamadas telefônicas" é que não está traduzido e sou um neófito na língua de cervantes. vou de "detetives selvagens", gosto de fortes emoções literárias...

não falei mal da internet, j'adore. mas ela fragmenta demais tudo, inclusive as relações. mas sim, estamos aqui...

júlia disse...

lindo o que vc escreveu/ boto fé no que você escreve. legal te encontrar ontem! fica feliz! beijo.

vina apsara disse...

legal te encontrar tb... :)