domingo, 16 de setembro de 2007

os paraísos artificiais

Achei um dos contos do único livro em prosa de Paulo Henriques Britto - que, para quem não sabe, se tornou minha sina nos últimos dois anos (com previsão de término) - e resolvi publicar aqui. Duas coisas sobre ele: carrega o mesmo nome do livro e é o primeiro conto, escrito em itálico - o que me leva a pensar numa espécie de prólogo, em que ele expõe as condições de seu projeto estético.

Senhoras e senhores, com vocês, Os Paraísos Artificiais:


Você está sentado numa cadeira. Você está sentado nesta cadeira já faz bastante tempo. Você fica sentado nesta cadeira durante muito tempo, diariamente. Você não conseguiria ficar parado em pé por tanto tempo; logo você ficaria cansado, com dor nas pernas. Também não conseguiria permanecer tanto tempo assim deitado na cama, de cara para o teto; essa posição se tornaria cada vez mais incômoda com o passar do tempo, até fazê-lo virar-se para um lado - por exemplo, para o lado esquerdo; mas depois de alguns minutos de bem-estar, seu corpo seria dominado pouco a pouco por uma sensação de desconforto que gradualmente se transformaria numa idéia, de início vaga, depois mais nítida, mais e mais, até cristalizar-se nas palavras: "Esta posição é a menos confortável que há", e essas palavras em pouco tempo levariam a estas: "A posição mais confortável de todas seria ficar virado para a direita". A idéia aos poucos se tornaria mais forte, até sobrepujar a inércia natural do corpo, e nesse momento você se viraria para o lado direito. Imediatamente uma sensação deliciosa de prazer lhe invadiria o corpo, como se cada célula sua fosse uma boca a proclamar: "Esta é verdadeiramente a mais confortável de todas as posições". A nova sensação, porém, não perduraria por muito tempo; logo você seria obrigado a trocar de posição mais uma vez, e todo o ciclo recomeçaria.
Mas quando você está sentado, sentado nesta cadeira, nada disso acontece. Você é capaz de ficar sentado nela horas a fio, os olhos fixos na parede em branco, sem pensar em nada, sem sentir nada além da sensação de ter um corpo, de estar ali, sentado, olhando para uma parede em branco, intensamente acordado. Você consegue ficar sentado assim nesta cadeira por muito tempo sem nem mesmo trocar de posição; e quando você se cansa da posição em que está, basta mudar ligeiramente as posições relativas das pernas e dos pés - por exemplo, colocar o pé direito em cima do esquerdo se antes o esquerdo estava em cima do direito - e logo você restabelece o conforto com um mínimo de esforço, sem ter que reestruturar a posição geral do corpo, como aconteceria se você estivesse deitado. É bem verdade que tais trocas de posição não proporcionam a sensação quase orgástica que você experimenta quando, deitado na cama, depois de passar muito tempo voltado para um lado, cada célula de seu corpo é como uma boca clamando: "A melhor posição seria estar virado para o outro lado", e você finalmente se vira; na cadeira, tudo o que acontece é uma leve sensação de desconforto ser substituída por uma leve sensação de conforto. Porém tudo é uma questão de escolha, e entre, de um lado, uma situação em que breves períodos de intenso prazer se alternam com longos períodos de conflito entre inércia e desconforto crescente, e, de outro, uma situação em que perdura uma sensação mais ou menos constante de bem-estar, sem grandes variações, você prefere a segunda. É um direito seu; o corpo é seu.
Mas esta escolha acarreta certos problemas. Ao contrário da situação da cama, que pelo menos promete o sono, a perda da consciência, o esquecimento de tudo isso que tanto incomoda você, a da cadeira não guarda promessa alguma: é necessário tentar perpetuá-la, fazê-la durar o máximo de tempo possível; porém chega uma hora em que suas pernas começam a sentir-se desconfortáveis em todas as posições possíveis - que, afinal de contas, não são tantas assim -, e mais cedo ou mais tarde você é obrigado a levantar-se, tão desperto quanto antes. E este prolongamento da vigília tem seus perigos. Pois ao levantar-se da cadeira você se dá conta de que a porção de espaço que você ocupou durante tanto tempo, sentado na cadeira, está agora impregnada da presença física do seu corpo; ou seja, ela guarda agora alguns vestígios de substancialidade que seu corpo deixou ali. Cada vez que você voltar a passar pelo trecho do quarto onde estava a cadeira, durante o momento exato em que seu corpo reocupar o espaço exato em que permaneceu por tanto tempo, você vai sentir uma intensificação súbita da sua existência, de seu próprio corpo - a sensação física de recapturar um pedaço de você que já não lhe pertence. Naturalmente, nada impede que você recoloque a cadeira no mesmo lugar de antes, se sente nela e permaneça ali por quanto tempo quiser, ou conseguir, e durante todo esse tempo goze a sensação de estar na posse da sua materialidade perdida. Mas essa sensação é ilusória, pois esses vestígios não fazem mais parte de você: só podem ser ocupados provisoriamente, como uma roupa que se veste. Assim que se cansar desse jogo e se levantar da cadeira, você vai voltar a perdê-los: mais ainda, vai perder também uma pequena porção adicional de sua matéria, mais vestígios seus que vão ficar no ar, superpostos aos anteriores. Esses vestígios mais cedo ou mais tarde vão se dispersar, com o movimento constante de corpos no quarto, e se perder para sempre. Assim, você está constantemente largando camadas sucessivas de seu ser, desintegrando-se a cada instante de sua existência no espaço; e é por isso que você não é eterno, não pode ser eterno, pelo mesmo motivo que um lápis ou uma borracha não podem ser eternos.
Mas há uma maneira simples de alterar essa situação - quer dizer, não alterá-la objetivamente, o que seria impossível, e sim modificar o modo como você a vivencia (e como você só sabe das situações o que vivencia delas, para todos os fins práticos modificar sua percepção de uma situação é a mesma coisa que modificar a situação em si): basta sentar-se na cadeira, pegar um lápis e uma folha de papel, e começar a escrever.

4 comentários:

Bruno disse...

essa vida literária...

vina apsara disse...

fazer o que, né?

naI disse...

"goze a sensação de estar na posse da sua materialidade perdida" é viagem demais pra mim. além do mais, ficar sentado tempo demais deixa a bunda quadrada, como é que ele não considerou isso?

vina apsara disse...

acho que isso o que ele quer dizer com desconfortável...