terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

reparação

Amor ao cinema

Há alguns dias, eu vi o tal do filme baseado no livro "Reparação", do escritor inglês Ian McEwan. Foi indicado para o Oscar de melhor filme e melhor atriz (para a piratas-do-caribe Keira Knightley). Devo confessar que o filme foi realmente surpreendente, a comecar, no que diz respeito ao cartaz:



...que anuncia um filme com características semelhantes a este, também premiado, e estrelado pela mesma magrela esquisita:

Reparem nas semelhanças: o corte horizontal do pôster, revelando o nome do filme. O posicionamento das personagens nas extremidades. A ênfase na paisagem, prometendo uma excelente direção de arte. A expressão dos atores. As cores, meu Deus!, as cores...!

E acho que todos esses motivos justificariam a pergunta de um colega: - Ei, esse também é um filme da Jane Austen? O que seria uma pergunta abesolutamente descabida, não fosse a apresentação dos dois filmes exatamente a mesma. Isso revela, afinal de contas, que para Hollywood não deve haver a menor diferença (estética, de reconstrução histórica) entre um filme passado no início do século XIX, em plena era vitoriana, e outro na década de quarenta, no bojo da segunda guerra mundial.

Dito tudo isso, passaremos à terceira imagem, a capa do livro (antes que resolvam muda-la para o poster do filme):

Eu sei que a imagem é ruim, mas vejamos. Bem, o que há de diferente entre esta capa e o pôster? Ei, onde está o casal ternura do poster? E onde essa menina, que ocupa TODA A EXTENSÃO da capa do livro, está no poster do filme? Perai... Ah! Já sei! É aquela sombra do lado do título! Bem ali, ó, do lado do A do Atonement.

Pois é, pacientes leitores, o fato é que a personagem principal da história não é o papel que provavelmente renderá à pirata magrela o oscar de melhor atriz, e sim a garotinha - que sofre uma espécie de aborto no meio do filme e simplesmente desaparece, em favor de cenas de punhetagem paisagística.

SPOILER
O pior é que, pensando bem, até que a coisa faz sentido. Como eu dizia, no meio do filme, o ritmo da narrativa perde fluidez e é regada de flashbacks repetidos e paisagens pasteurizadas pelo fotoshop. A primeira parte, que caminha vertiginosamente em direção ao estupro que dá razão de ser ao filme, destoa completamente da segunda, que transforma os controversos personagens em peregrinos cheios de remordimentos e culpa, e o enredo do filme em mais um de amor separado pelo mundo cruel. No final, o mundo é cruel, e não as pessoas. E tudo isso para transformar a pobre personagem de Keira no centro do filme.

Mas, até aí tudo bem. O golpe final é a última cena, ou as últimas cenas, que se juntam à linha dos flashbacks repetidos e mais uma vez explica o óbvio. A mocinha, já idosa, em uma encenada entrevista, nos explica que a sua grande iniciativa em relação à culpa que a torturou toda a vida foi escrever um livro que pudesse dar ao casal ternura um final feliz que eles nunca tiveram. Bom, eu vou dizer uma coisa que pode parecer um pouco pedante, mas é o seguinte. No século bolinha antes de cristo, em um lugar que seria um dia Grécia, um biólogo homossexual chamado Aristóteles escreveu o que provavelmente é o primeiro livro da história que trata unicamente de literatura. Este senhor desenvolveu um conceito que chamaríamos depois, com a fatal invenção do Latim, deus ex machina, que a princípio se referia ao vício adotado por alguns tragediógrafos de resolverem os momentos mais intrincados da trama com a ajuda de algum deus. Então, o deus aparecia (ex machina, o que significa animado, no sentido de movimento) e dizia: e agora o cara mau vai sair de cena porque eu quero. E pronto. Tudo resolvido. Assim, com a conseqüente evolução do teatro e a criação da sétima arte, o conceito expandiu-se e hoje podemos falar de deus ex machina para qualquer solução sobrenatural do roteiro, o clássico "isso foi tudo um sonho", ou aquela história da novela da globo que teve de incorporar um furacão porque o elenco estava muito grande, ou, finalmente, quando uma personagem aparece no final do filme e explica absolutamente tudo o que aconteceu, resolve as falhas de roteiro e reúne sob seu jugo os momentos misteriosos da narrativa. O que aconteceu com o casal? Dá-lhe flashback. Por que será que a menina fez aquilo? Mais explicação. O que vai acontecer com ela? Toma um remédio, e explica as condições de sua doença terminal.

Foi surpreendente, eu admito. Até metade do filme, acreditei que seria uma história interessante. No meio, temi pela abdução de alguns personagens (os pais da menina, os gêmeos, a menina, o pai do carinha, todos os personagens secundários, ...). E no terceiro flashback da cena da fonte, disse internamente: tá bom, tá bom, eu juro que entendi da primeira vez...

5 comentários:

Babi disse...

Bom, infelizmente, sou obrigada a discordar de seu post. Adorei o filme. A narrativa é muito boa aliada com fotos melhores ainda (e não são de photoshop). Gostei bastante e inclusive até me emocionei um pouco.

ciça disse...

Chuchu, na verdade os dois filmes são dirigidos pelo mesmo cara (que parece gostar dessa subnutrida e de posteres cortados).
E não é assim tão absurdo: a epígrafe do livro é da Jane Austen e tem várias referências à ela na história.
Inclusive, antes do autor-autoridade assumir por aí na cara dura que metade do livro é plágio, ele dizia que era "um livro Jane Austen".

O pior é que com tudo isso o livro continua sendo muito bom. O filme eu nem arrisquei, depois da decepção do Orgulho e Preconceito.

vina apsara disse...

metade do reparação é plágio?

não duvido que o livro seja muito bom, na verdade o filme também é muito interessante até a metade. depois descobri que a magrela ia mesmo interpretar a menininha, só que mais velha. mas, ela resolveu fugir dos papeis adolescentes e se apaixonou pela outra personagem... enfim!

e esse diretor é muito novo, né? li no imdb que foi o mais novo a apresentar um filme em Berlim. 35 anos. pra você ver.

lili disse...

sou contra esse filme.

Anônimo disse...

Obrigado por intiresnuyu iformatsiyu